Como a Venezuela destruiu sua indústria automotiva e expulsou montadoras norte-americanas
Governo de Maduro se incomodava e dizia estar sendo boicotado quando marcas norte-americanas reduziam a produção por problemas gerados pela própria economia do país
por Renato Fonseca
Publicado em 04.01.2026
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Ao invadir a Venezuela, no dia 3 de janeiro, o presidente dos Estados Unidos citou como um dos motivos as conflituosas relações do regime ditatorial do país com empresas norte-americanas. Para Trump, governos anteriores não deram uma resposta à altura e ele estaria fazendo isso agora. Turboway faz um retrospecto sobre problemas que foram causados nos últimos anos com empresas norte-americanas por lá.

As (más) relações do regime de Maduro com os Estados Unidos passa diretamente pelo setor automotivo, que já foi forte por lá nos anos 80 e 90 até ser sufocado pela economia local entre 2014 e 2017. A Venezuela já chegou a fabricar carros que foram importados ao Brasil, mas hoje não produz nenhum modelo e a idade média da frota é de mais de 20 anos, como relatamos aqui.

GM foi expulsa

icone cameraFachada da antiga fábrica da General Motors na Venezuela (Reprodução/Tibisay Romero/BBC)

A Chevrolet operou na Venezuela por anos dentro do período da ditadura de Chávez e Maduro. Operou até onde deu, em 2017. A empresa vinha reduzindo sua produção no país ano a ano pelo motivo de falta de materiais e a crise econômica que já assolava o país.

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O último ano de fabricação expressiva de veículos na Venezuela foi 2007, quando o país produziu 170 mil automóveis. Hugo Chávez era o presidente na época e já havia sido reeleito por duas vezes. Para efeito de comparação, o Brasil produziu quase 3 milhões de veículos naquele ano.

A partir de 2007 essas empresas viveram um problema: não conseguiam produzir porque as peças foram sumindo do mercado pelo país ter um embargo internacional (liderado pelos americanos). E por outro lado o governo venezuelano encarava estas empresas como inimigas da economia, como se estivessem parando de produzir para boicotar o país.

O governo venezuelano achou uma maneira de tomar a fábrica e todas as instalações da GM no país com a ajuda da Justiça: aproveitou um processo em que uma concessionária moveu contra a marca e turbinou esse processo gerando uma dívida que a marca não reconhecia. Assim a marca perdeu sua fábrica no país e demitiu 2700 funcionários por mensagem de texto. A última notícia que se tem da fábrica é que ela fazia peças para reposição.

Goodyear também foi chutada

Em 2018 foi a vez da Goodyear enfrentar problema. A marca não conseguia fabricar pneus porque não conseguia mais importar borracha e decidiu parar a produção. Foi o bastante para o governo alegar um boicote da marca ao país e abrir uma investigação contra seus controladores. A empresa saiu do país.

Segundo a BBC, a saída da Goodyear foi tão às pressas que a empresa decidiu indenizar os funcionários com pneus que estavam na linha de produção.

O petróleo como tema central

O ponto principal em jogo na Venezuela é a indústria petrolífera. Essa indústria mudou toda a sociedade venezuelana na década de 1920, quando a Shell foi a pioneira em explorar um poço no país. A Shell é uma empresa britânica, mas foi seguida por dezenas de empresas dos EUA nos anos posteriores.

O primeiro conflito do petróleo aconteceu na década de 1970, ainda em outro governo. Ali os venezuelanos decretaram que, embora o petróleo fosse explorado por algumas empresas estrangeiras, todo o produto extraído de território venezuelano era de propriedade do governo. Assim as empresas passaram a pagar um preço alto para explorar petróleo no país.

Mas esse ainda não é o ponto que deixou as empresas estrangeiras revoltadas. Os episódios declarados por Trump aconteceram entre 2007 e 2009, quando o então ditador Hugo Chávez resolveu expulsar as empresas e o governo assumiu a maior parte da exploração.

Foi um movimento que com o passar dos anos revelou um problema enorme: como as grandes exploradoras mundiais saíram do jogo, nenhuma nova tecnologia foi introduzida no país nos últimos 15 anos. O resultado é que os venezuelanos sucatearam seu parque de exploração do petróleo. Por isso a Venezuela nos últimos anos se aprofundou na crise: o petróleo é abundante, mas a capacidade para exploração estava diminuindo.

Petroleira venezuelana nos Estados Unidos

icone cameraAntigo posto da venezuelana Citgo nos Estados Unidos (AFP)

Para encerrar o assunto, Maduro operou nos Estados Unidos uma refinaria e distribuidora de petróleo até 2019. A Citgo era um braço da venezuelana PDVSA com sede no Texas que foi tomada pelo governo norte-americano.

O contexto: duas das empresas que foram expulsas da Venezuela em 2009 entraram com pedidos de indenização em tribunais internacionais e ganharam a causa. Como a Venezuela não tinha dinheiro para quitar a dívida de bilhões de dólares, confiscou a Citgo e a leiloou por cerca de R$ 35 bilhões.

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